O conceito de Diabo pode
ser definido como um ser sobrenatural que se caracteriza por representar a própria
personificação do Mal: seu mito resume em si todo o problema do
que hoje se denomina como Mal. Sendo uma força incontrolável e
hostil, origem de todo o mal, é temido pelo Homem, que o considera um
fenômeno dotado de poder enorme e perene, sentindo-se por ele constantemente
ameaçado. Essa criatura pode, contudo, receber nomes variados, funções
diversas e ter origens distintas, dependendo para isso, tão somente da
cultura à luz da qual se analisa o conceito.
Em muitos idiomas Diabo, Demônio e Satã são sinônimos
da mesma realidade. Porém, é interessante notar que, embora as
três palavras compartilhem hodiernamente da mesma acepção,
nem sempre foi assim. Do vocábulo hebraico Satã, cuja raiz significa
opor, obstruir ou acusar, surgiu a tradução
grega diabolus, caluniadorou acusador. Só tempos
mais tarde é que a palavra adquiriu o sentido de adversário,
quando diabolus passou ao latim como diabolus.
Por sua vez, demônio, em grego daimónion, significava primeiramente
deus, divindade, deus de categoria inferior; era um intermediário entre
os deuses e os mortais. A expressão era utilizada também para
designar a voz interior que fala ao homem, guia-o, aconselha-o, sem portanto
qualquer significação pejorativa. Homero (século IX-VIII
a.C.), chegou a empregar o termo muitas vezes conotando o próprio destino.
Foi só posteriormente que daimonion, palavra derivada de daiomai, dividir,
adquiriu o sentido de espírito mau.
O Diabo é designado por inúmeros outros nomes dentre os quais,
destacam-se Satanás, Satã, Belzebu, Lúcifer, Príncipe
das Trevas e Pai da Mentira. No Brasil, a superstição popular,
com medo dos efeitos funestos possíveis apenas por pronunciar-lhe o nome,
se lhe atribuiu diversos cognomes. Por esse motivo é também conhecido
pelos apelidos de Coisa Ruim, Maligno, Rabudo, Tinhoso, Cão, Excomungado,
Cramulhano, entre outros.
No entanto, cada um dos termos correspondem apenas a sinônimos que, não
obstante se refiram à mesma entidade, não constituem obviamente
o próprio ser na sua essência.
Embora os antigos gregos não lidassem com uma figura única que
representasse unicamente a maldade do mundo, foram eles os primeiros a levantar
a questão do mal em termos filosóficos. A mitologia grega estava
repleta de deuses que eram em sua essência ambivalentes pois possuíam
ao mesmo tempo tanto qualidades positivas, quanto qualidades negativas, não
havendo, portanto, uma criatura única a quem pudesse ser atribuída
toda a maldade do mundo.
Havia, contudo entre eles, um deus, Hades, que era considerado o senhor do mundo
subterrâneo, e que presidia tudo que era sombrio. Senhor dos Infernos,
reinava sobre os espíritos mortos que habitavam em seus domínios,
terra das sombras. Entretanto, Hades tinha um outro cognome, Pluto, através
do qual também simbolizava a fertilidade, porque como rei das profundezas,
era também responsável pela produção de todos os
minerais preciosos como ouro e prata acrescido do fato de que era sob suas ordens
que as sementes ocultas sob a terra germinavam, dando origem às plantações
e às colheitas. Hades ou Pluto, mantinha portanto, sua qualidade ambivalente
pois era considerado tanto o deus da morte, quanto o deus da fertilidade. Dessa
concepção, adveio provavelmente a associação do
Diabo com a fertilidade e por conseguinte, com a sexualidade, incorporada posteriormente
pelos cristãos, na construção de seu princípio do
mal. Além disso, havia Pã, filho de Hermes, outra criatura da
mitologia grega, um ser bizarro, extremamente cabeludo, semelhante a um bode,
com chifres e patas fendidas, que e que simbolizava o desejo sexual desenfreado.
Essa descrição iconográfica acrescida do fato do deus Pã
estar ligado à tudo que se referia à selvageria e a loucura sexual
influenciou definitivamente a imagem atribuída posteriormente ao Diabo
dos cristãos. Os textos medievais se referem ao Diabo como uma criatura
peluda, dotada de chifres e patas, capaz de adquirir formas dos diversos animais
que simbolizavam freqüentemente a fertilidade como o asno, o porco, o lobo,
o cão, o galo, e bode, esta última a mais comum.
Da mesma forma que o branco é associado à Luz e ao Bem, o negro
possui uma imensa gama de associações negativas e assustadoras,
sendo invariavelmente associado ao mal. O preto é tido como a cor da
noite, símbolo das trevas, onde os seres fantasmagóricos e informes
têm as mais diversas atividades funestas. A religião hebraica contribuiu
em muito para isto adotando a idéia de que Satã como a personificação
do lado escuro de Deus, o que demonstra que inicialmente para os hebreus, não
havia um ser único, responsável exclusivamente pelo mal. Posteriormente,
contudo, o povo hebreu, buscando uma nova teodicéia, dividiram seu Deus
em duas partes, a primeira, contendo seu aspecto bom e a segunda, contendo o
aspecto mau. O mal passou a ser considerado então como o resultado do
pecado do homem, descrito no livro de Gênesis, mais precisamente quando
Adão e Eva desobedeceram ao Criador, comendo no Jardim do Éden
do fruto proibido.
Foi somente à época do Novo Testamento, que a questão do
Diabo foi trazida à luz com mais agudeza, passando o Diabo a ocupar uma
posição de destaque tendo adquirido a função de
contraparte do Cristo. Para os cristãos, o Diabo é o representante
das forças do mal, em constante guerra com Deus, criador de todas as
coisas, onipotente, onisciente, onipresente e totalmente bom. No Novo Testamento,
consolidaram-se vários conceitos já existentes do Diabo: é
o chefe dos exércitos demoníacos, é o princípio
do mal, é o não ser, é um anjo caído. Dentro da
teodicéia cristã, o Diabo é centro da noite, que arde no
mundo subterrâneo e cujo intuito primordial é o de privar-lhe da
graça de Deus. Ainda segundo essa linha de raciocínio, a única
forma do Homem escapar ao seu jugo é através do mistério
da cruz, a cruz de Cristo que liberta os homens e restituindo-lhe a graça
de Deus.
No Tarô , o Diabo é a décima sexta carta, representado pelo
deus Pã, considerado uma criatura lasciva e indecente. Habitava nas cavernas,
que simbolicamente representa o lugar mais inatingível do inconsciente.
Símbolo da escravidão que acomete todo aquele que é cegamente
submisso aos instintos. No decorrer de um jogo, seu aparecimento indica também
a necessidade do reconhecimento e conseqüentemente confrontação
com tudo aquilo que é mais sombrio e destrutivo dentro de todo ser humano,
a fim de tornar-se possível o desabrochar de uma personalidade mais integrada
e consciente.
Simbolicamente, o Diabo representa o impulso que leva à desordem da consciência
e seu subseqüente enfraquecimento determinando a desintegração
da personalidade. Como a antítese do Bem, é causador de uma tensão
que somente será resolvida menos pela repressão, que só
faz aumentar seus efeitos desintegradores que se manifestam através da
dúvida, do ambivalente e do determinado, do que pelo seu reconhecimento,
compreensão, integração e absorção.